Projeto da UEL monitora e analisa animais encalhados no Litoral
21/11/2022 - 16:50

No ano passado, aproximadamente 2.300 animais marinhos, na sua maioria aves, foram encontrados encalhados no litoral paranaense, em apenas 100 km de extensão. Outras espécies, como tartarugas, golfinhos, lobos marinhos e focas, também foram registradas na mesma situação. Os dados são do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que conta com apoio, desde 2010, da Universidade Estadual de Londrina (UEL) nesse monitoramento e na análise anátomo-patológica dos animais encalhados.

De acordo com a professora Ana Paula Frederico Rodrigues, do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva (CCA) da UEL, coordenadora do projeto, há uma grande quantidade de dados já coletada e muitos estudos voltados não apenas para a determinação da causa mortis dos animais, mas todos os fatores envolvidos.

Em 2015, os pesquisadores passaram a atuar com o Projeto de Monitoramento de Praias (PMP) da Bacia de Santos (SP), em razão da exigência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) para estudos e monitoramento antes e depois da instalação de plataformas de petróleo na região.

A fase atual do projeto teve início em 2019, baseada no Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (Simba), que reúne dados dos PMPs de todo o Brasil. A coordenadora explica que o sistema já monitorou mais de 1 milhão de animais e o projeto da UEL se ocupa de cerca de 25% deste total.

Os estudos se voltam para o impacto da ação humana no meio ambiente. É uma pesquisa extensa e difícil, segundo Ana Paula, pela falta de dados mais antigos. Até 2015, a coleta era semanal, depois passou a ser diária.

O impacto indica relação com a atividade pesqueira, poluição e outros fatores. Ela destaca, por exemplo, a significativa quantidade de animais que morrem pela ingestão de plástico (embalagens vazias, tampinhas) ou mesmo pedaços de redes de pesca velhas simplesmente jogadas no mar pelos pescadores.

TARTARUGAS, AVES E BOTOS – Camila Roberta da Silva Ribeiro é doutoranda e seu foco são as tartarugas verdes, uma espécie que pode chegar a 1 metro de comprimento. Nesse caso os problemas envolvem as redes de pesca. “Muitas vezes, a rede fica presa na boca do animal, impedindo que ele coma e levando-o à inanição. Em outras, os pedaços se enroscam na nadadeira e não deixam que o animal volte à superfície respirar, provocando afogamento”, afirma.

Camila também está analisando dados estatísticos ligados à contaminação por elementos-traço e preparando dois artigos para publicação. Sua tese deve ser defendida ano que vem.

Ana Paula acrescenta que existem ainda muitas doenças registradas, como a fibropapilomatose, que provoca múltiplos tumores e pode afetar órgãos internos, especialmente em tartarugas verdes jovens. Tudo isso, segundo ela, é consequência da redução da imunidade dos animais, por causa da contaminação química. “Uma tartaruga saudável talvez não contraísse a doença”, diz.

Andressa Maria Rorato Nascimento também é doutoranda e prossegue seus estudos com aves, com que já havia trabalhado no Mestrado. Ela pesquisa a presença de um parasito renal bastante conhecido e busca relacioná-lo com a morte de aves migratórias que terminam nas praias paranaenses. A relação já foi confirmada pelos dados e, quanto maior a ocorrência dos parasitos, mais forte é a relação ecológica, ou seja, do meio ambiente. “Curiosamente, algumas aves migram da Europa e acabam adoecendo aqui”, diz ela.

A pesquisadora monitora mais de 50 espécies. A maioria são pinguins de Magalhães (navegador que primeiro os avistou, em 1520), também conhecidos como “naufragados”. Os dados estatísticos estão mostrando o impacto da contaminação de substâncias químicas, como derivados de petróleo, nas lesões encontradas nos organismos mortos. Andressa também prepara artigos para disseminação dos resultados.

Natália Gontscharow é estudante de graduação em Medicina Veterinária e o foco de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) são os botos cinza e outras três espécies de cetáceos afetados pela ação humana no oceano. Um exemplo está nas muitas lesões de pele causadas pelas redes enroscadas. Ou pior: na tentativa de tirar as redes, os próprios pescadores acabam cortando o animal. A estudante já comprovou que a ação antrópica é negativa e nociva às espécies.

“É uma pena, considerando as tantas histórias de que os próprios cetáceos auxiliam os homens nas pescarias”, afirma. Além das lesões, Natália também estuda alterações em glândulas dos animais, que indicam doenças.

RESULTADOS E PERSPECTIVAS – Para Ana Paula, a grande quantidade de dados já coletados é muito importante, mas ainda são necessários muitos estudos. Segundo ela, a previsão é que o projeto dure de 18 a 30 anos, e deve prosseguir com estudos rigorosos sobre a saúde dos animais levando em conta também o tempo, assim como vírus, parasitos e outros agentes envolvidos.

Até aqui, o projeto já rendeu, entre outros resultados, duas supervisões de pós-doutorado, quatro teses, cinco dissertações, quatro TCCs de graduação, quatro trabalhos de Iniciação Científica (IC) e 15 artigos. Outros ex-participantes ingressaram em mestrados e uma foi continuar seus estudos na França. "O laboratório contribui para a qualificação de uma área que possui demanda”, comenta a professora.

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