Primeiro título de mestre a aluna surda coroa esforço de inclusão na Unespar 21/08/2025 - 16:40

A Universidade Estadual do Paraná (Unespar) concedeu, pela primeira vez, um título de mestre para uma pessoa surda. A pedagoga Aline Pedro Feza, que concluiu o Mestrado Profissional em Educação Inclusiva em Rede Nacional (Profei), recebeu o certificado no início da semana na reitoria da instituição, em Paranavaí, no Noroeste do Estado. Enquanto a estudante conquistou uma vitória pessoal e profissional, ao completar esse ciclo com uma pesquisa sobre o processo de apropriação da língua portuguesa escrita pelas crianças surdas, a universidade alcançou um novo patamar de reconhecimento no campo da educação inclusiva.
Com campus em Curitiba e em cinco cidades do Interior do estado, a Unespar conta com o Núcleo de Educação Especial Inclusiva (Nespi), que reúne professores, profissionais da carreira técnica-administrativa e estudantes universitários atuando em várias frentes para assegurar a inclusão e a acessibilidade. A depender da necessidade dos alunos, o Nespi proporciona o atendimento individual, com foco na igualdade de condições de aprendizado para os universitários.
A professora Analéia Domingues, pró-reitora de Políticas Estudantis e Direitos Humanos da Unespar, detalha o público-alvo e a estrutura de suporte pedagógico. “Têm direito a esse atendimento especial as pessoas com deficiência ou as neurodivergentes, além daquelas que têm dificuldades de aprendizagem advindas do contexto, como estudantes acima de 50 anos. Temos também na equipe um docente que é o nosso professor de atendimento educacional especializado, responsável por articular, junto aos colegiados dos cursos, o plano educacional individualizado, para apoio pedagógico especializado para esses estudantes”, afirma.
Ela destaca que a atuação do núcleo vai além da sala de aula. "O Nespi assegura condições adequadas de aprendizado a esses estudantes que já precisam superar dificuldades para se manter no ambiente acadêmico, atendendo a comunidade com ações educativas para sensibilizar e combater violências e preconceitos”, pontua. “Com uma média de 40 estudantes atendidos em cada campus, nosso trabalho inclui guia e intérprete para pessoas cegas e surdas, regulamentação de uso de animal de apoio emocional, entre outras ações", pontua a pró-reitora.
A importância dessa estrutura é reconhecida pela nova mestre, que também é professora, ou seja, conhece as desafios do mundo do ensino. “Minha orientadora ajudou muito e teve muita paciência. Quando necessário, ela falava devagar, alto e articulando bem as palavras, até repetia várias vezes as explicações do que eu precisava fazer”, salienta Aline Feza, que é professora de carreira da rede pública de educação de Maringá.
Aline perdeu a audição gradualmente depois da adolescência, por conta de uma doença autoimune e do fator genético. Antes de entrar na graduação, ela ouvia 70% em um dos ouvidos e aos 18 anos tinha apenas 25% de audição em um ouvido e 7% no outro. Na Unespar, contou com o apoio de um intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) em todas as aulas. Segundo ela, sempre teve também o respeito de colegas e profissionais da instituição de ensino superior durante o curso, iniciado em 2023.
O vice-reitor da Unespar, Carlos Alexandre Molena Fernandes, reforçou que a conquista de Aline representa um marco para a instituição. "Este momento simboliza o compromisso da Unespar com a inclusão e a valorização da diversidade. O título concedido à Aline não é apenas um reconhecimento acadêmico, mas também um exemplo de superação e de que a universidade deve estar aberta e preparada para garantir oportunidades a todas as pessoas", destaca.
INCLUSÃO – A Lei Federal n.º 13.146/2015 assegura que estudantes surdos sejam acompanhados por intérpretes de Libras durante a trajetória acadêmica. Na Unespar, esses profissionais são credenciados na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), garantindo qualidade no atendimento. Em 2023, a Pró-Reitoria de Políticas Estudantis e Direitos Humanos da universidade publicou um documento de orientação para os campi com os procedimentos para solicitação e contratação de interpretes de Libras.
No Paraná, as sete universidades estaduais atuam efetivamente com políticas de inclusão para pessoas com algum tipo de deficiência, reservando inclusive 5% das vagas dos vestibulares para candidatos PCDs. Entre os mais de 61 mil estudantes de graduação, 1.151 são pessoas com deficiência.
A universidade com o maior número de matriculados é a Universidade Estadual de Londrina (UEL), com 281 alunos enquadrados como PCDs. A Unespar é a segunda nessa lista, com 274; seguida pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), com 200; pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), com 137; Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), com 108; Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com 93; e a Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), com 58.